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terça-feira, março 02, 2010

Alice No País das Maravilhas



Alice era uma menina com muita imaginação.
Uma manhã em que estava a estudar no campo com a professora... adormeceu! Ela tinha o hábito de fechar os olhos... assim podia deixar vaguear a imaginação, liberta do controle dos mais velhos. E deixou-se levar...!
Acordou ao som de uma vozita! E viu um coelho muito estranho a correr.
- Espera-me, senhor Coelho! - gritou muito animada.
E levantou-se.
Perseguiu a personagem, mas este era muito rápido e meteu-se num buraco muito fundo, desaparecendo.
Alice seguiu-o e caiu num poço sem fundo, mas não se magoou... ! Até que chegou a um corredor mágico, onde viu entrar o coelho.
Para o seguir teve que beber uma poção e morder numa rolha...!
Diminuiu de tamanho, ficando pequenina!
Chegou então ao País das Maravilhas, onde dois irmãos se riram dela...!
Alice viu o coelho e entrou numa casa. Comeu um bombom que estava em cima da mesa ... e cresceu. Cresceu tanto que "transbordou" da casa!
Para mais o coelho, em vez de ajudá-la, preferiu sair dali a correr.
Então Alice mordeu uma noz... e ficou pequena de novo!
Saiu dali apressada.
Encontrou o Gato dos Desejos, o qual a levou à festa mais esquisita que jamais tinha visto.
Lá chegados uma lebre disse-lhe que estavam a celebrar uma festa de aniversário.
- Procuro um coelho branco! - declarou Alice.
Indicaram-lhe um cruzamento de caminhos.
Alice escolheu um ao acaso.
Depois de muito caminhar, encontrou finalmente o coelho.
- Alto, menina. A Rainha está a chegar. Vai-te embora!
Alice não percebeu nada.
Viu uns valetes com pernas a pintar as rosas de vermelho.
E de repente chegou a Rainha. Quis jogar criquet com Alice, e foi um sarilho.
O gato fez cair a Rainha...!
Porém, ao levantar-se... ela gritou que lhe faltavam os brincos reais!
- Eu não os tirei, senhora! disse Alice assustada.
- O meu carrasco vai-te cortar a cabeça -anunciou a Rainha.
- Levem-na para a cela! - gritou furibunda.
Nesse momento Alice voltou ao mundo real...!
Tinha tido um pesadelo?
Olhando em volta descobriu o coelho branco junto a uma árvore florida.
O coelho afinal existia mesmo!

"Alice No País das Maravilhas"



Perdurou no meu imaginário até aos dias de hoje. "Alice no País das Maravilhas" é de facto difícil de esquecer e agora acaba de se estrear nos cinemas pela mão de Tim Burton.
Como fã dos filmes de Tim Burton e porque "Alice no País das Maravilhas" é uma das recordações que trago desde os meus tempos de infância não perderei este filme nos cinemas.
Estou curioso e ansioso.

quinta-feira, fevereiro 04, 2010

Zumbido

Com um vestido escuro sobre a sua pele clara passa em passos de lã por entre uma multidão de corpos quentes e moribundos que bailam livremente ao sabor de uma melódica música numa sala pequena e perdida nestes confins que lhe chamo fim do mundo.
Eu deixo-me ficar de frente para o barulho, de calças de ganga azul escura, uma simples t-shirt e casaca de pele preta. Ainda trago comigo o frio de inverno, da neve intensa de lá de fora. Sinto o gelo da neve acumulada em meu cabelo derreter e escorrer por minha cara abaixo, tocam-me nos olhos. Respiro fundo. Uma abafada corrente de ar quente e húmido esbate-me no corpo vindo da multidão. Sinto o cheiro dos corpos e do aroma dos demais por entre um tímido mas resistente cheiro a madeira velha que preenche a casa.
Dois jovens de olhos pretos e mãos entrelaçadas passam à minha frente, respiram numa intimidade apaixonada, trazem o coração no olhar que lançam sobre o outro. Já não me lembra a última vez que me apaixonei com toda a força, só me lembra o presente e os devaneios sem futuro. Sinto a falta de amar, faz-me frio, faz-me ficar aqui de olhos baixos, sentindo lá longe o movimento das restantes vidas. Triste estas nossas vidas que não recebemos um abraço nestas noites de Inverno...
Gosto de traços pretos, bem definidos, por debaixo de um olhar a arranhar os demais. Gosto do olhar dos apaixonados, de todo o seu brilho, parece que têm o mar nos olhos. Gosto particularmente do toque da luz da lua no olhar. Gosto dos olhos da pequena e bela rapariga que lá longe se faz mulher perante aquela gente. São deveras os meus favoritos porque têm o encanto da menina que foi e da mulher que se tornou. Gosto da expressão que o seu olhar tem quando se deixa levar pelo som da música.
Pessoas continuam a entrar, trazem no olhar o desejo e têm os corpos vestidos de sensualidade. Corpos semi-nus prontos para se libertarem da vida real e entregarem-se à noite e à dança com dedicação e transpiração.
Uma multidão me assalta assim que o espaço começa a faltar, deixo-me levar pelo movimento dos corpos. Tocam-me vezes de mais. Sou arrastado contra a parede, bato violentamente com as costas no branco sujo. Fecho os olhos em dor, um tremor me conquista, o peito aperta e me sufoca, a respiração quase não sai, quase caio sobre o velho soalho. Abro e levo os olhos esganados ao tecto, fixo o olhar sobre um grande e portentoso lustre de cristal que ficou esquecido pelo tempo. A casa transpira história mas hoje não há história que se respeite, hoje esta casa é violentada e marginalizada. Hoje esta casa não passa de mero abrigo para jovens inconsequentes. Espero que resista. Ergo-me perante os demais e finjo ser forte. Pouso a casaca sobre um móvel encostado à parede e faço-me rebelde enquanto avanço para o centro da sala. Finto as pessoas sem medo e com coragem. O chão estremece à medida que toco na madeira velha. Liberto-me em movimentos que não controlo mas flutuo ao som da música. Mal conheço este meu lado rebelde mas hoje o mundo se cala em meu redor e apenas eu existo. É fácil.
O cabelo longo e liso solta-se num movimento e cai sobre os seus ombros despidos. De braços elevados ao ar bailando-os numa dança suave aponta discretamente os olhos para mim. Não desvio o olhar dos seus olhos, ela não recusa o toque de olhares, e sem receio, avanço em sua direcção. Toco-lhe na respiração, levo-lhe as mãos à sua barriga, encosto-me a ela e quase tocamos os rostos. Elevo-a por entre a multidão, rasgamos a sala em movimento, cruzamos os corpos, entrelaçamos os braços, finta-mo-nos vezes sem conta ao som da música que nos bate aos ouvidos. Sobre a alma se abate a euforia e na tentação dos corpos não há lucidez que resista, quase se descontrolam as emoções, quase deixo de ser rebelde. O seu perfume chega a mim aquando baixo a face ao seu pescoço, percorre-me o corpo num ápice. Quase levo os meus lábios à sua pele mas resisto à tentação e deixo somente a respiração libertar-se perto dela.
Não há como fingir o desejo e na dança dos nossos corpos resistir ao seu encanto torna-se impossível, a cada passada vejo-me à procura de um sorriso em seus lábios carnudos mas o sorriso está fechado e tímido. Deixo-me ficar pelo olhar que coloca em mim e me acompanha a todo o tempo. Porém, com o passar do tempo um mundo de gente desconhecida abafa-nos no meio da sala e limita-nos os movimentos. A sua expressão facial muda e incomodada avança por entre os gigantes e quase desaparece nas sombras. Faço um esforço em segui-la mas o meu corpo não se desloca com a mesma facilidade. Lá longe vejo-a subir a toda a velocidade umas escadas que dão para o piso de cima.
Dou com ela ao fim de alguns minutos num quarto de luz apagada, sentada ao pé da cama, virada para a janela. Entro em passos suaves, fecho a porta devagar e sento-me a seu lado. Numa intimidade desconhecida ficamos ali sentados no escuro e em silêncio a olhar a neve cair pela janela enquanto o chão apenas estremecia ao ritmo da música lá de baixo. Dispo-me de rebeldia e aqueço-a num abraço enquanto ela pousa a cabeça em meu peito. Ao fim de alguns segundos deixa-se cair sobre as minhas pernas e coloca os olhos no tecto de madeira. Quase mal falamos, apenas frases soltas eram proferidas mas só os olhos diziam algo que queria mesmo ouvir. Era o brilho no seu olhar que me cativava segundo após segundo. Ficamos ali os dois deitados, corpos juntos, ela virada para cima e eu para baixo com o rosto pousado sobre um dos braços. Apaixonei-me de verdade e a meio de uma frase que já mal conseguia ouvir por tão cego estar lhe roubo um beijo que ela agarrou com toda a força como se fosse tudo o que desejasse e esse beijo perdurou por toda a noite em nossos lábios. Não descolei os meus lábios dos seus e os nossos olhos não mais se abriram, em seu corpo pousei o meu e a roupa rasgada ficou esquecida a um canto. Batia forte o seu coração em explosões sucessivas até ao momento em que do cansaço adormeceu para logo de seguida eu a acompanhar.
Não importa se os ouvidos doiem ou o corpo se recente. A brutalidade do momento é vivida até à exaustão sem controlo nem limites. Assim, os corpos se unem vezes sem conta numa dança pura e limpa e para lá de tudo que se possa pensar ou dizer, não há palavras que nos possam julgar, porque a vontade que cá dentro vive é o que comanda a vida, sem pesar nem receios, e tudo o que fica ao acordar é apenas um zumbido constante nos ouvidos feridos porque as almas essas saem rejuvenescidas e os corações esses saem imaculados. No entanto, é tudo tão fútil que acabamos sempre vazios, perdidos no nosso próprio terror, numa solidão que nos conquista sem pesar e tudo perde encanto ao amanhecer quando dos olhos se abrem à luz do sol e se mostram as verdadeiras caras sem sombras nem maquilhagem e assim as histórias se perdem por entre os dedos e não permanecem para eternidade, não há história que fique para a eternidade, talvez esta casa velha fique para sempre na memória mas o resto esvoaça-se tão rápido como o vento que passa por mim.
Porém, ela ficou a meu lado, agarrada à minha mão mesmo depois do acordar. Ficou ali longos segundos a segurar-me e eu senti o seu coração bater uma vez mais intensamente. Não tive vontade de ir embora como outras vezes o fiz porque hoje acordei com um sorriso nos lábios e um abraço que aquece cá dentro. O vento que veio de um vidro partido na janela limpou-lhe a cara e abriu-lhe os olhos. Eram os mesmos da noite anterior para minha surpresa, tinham uma doçura que já me esquecia. Deixo um sorriso ao seu acordar e deixo-me ficar, tudo o resto pode esperar, porque tudo o que quero agora é viva-la sem egoísmos. Não lhe espero a eternidade, espero somente estes segundos do seu tempo e da sua companhia, e, com isso sei que serei feliz para toda a eternidade porque comigo levarei sempre algo que nunca mais conseguirei esquecer.

sexta-feira, janeiro 29, 2010

O essencial é invisivel aos olhos



XXI
E foi então que apareceu a raposa:
- Bom dia! -disse a raposa.
- Bom dia! - respondeu delicadamente o principezinho que se voltou mas não viu ninguém.
- Estou aqui - disse a voz -debaixo da macieira...
- Quem és tu? - perguntou o principezinho. - És bem bonita...
- Sou uma raposa - disse a raposa.
- Anda brincar comigo - pediu-lhe o principezinho - Estou tão triste...
- Não posso brincar contigo - disse a raposa. - Não estou presa…
- Ah! Então, desculpa! - disse o principezinho.
Mas pôs-se a pensar, a pensar, e acabou por perguntar:
- O que é que “estar preso” quer dizer?
- Vê-se logo que não és de cá - disse a raposa. - De que é que tu andas à procura?
- Ando à procura dos homens - disse o principezinho. - O que é que “estar preso” quer dizer?
- Os homens têm espingardas e passam o tempo a caçar - disse a raposa. - É uma grande maçada! E também fazem criação de galinhas! Aliás, na minha opinião, é a única coisa interessante que eles têm. Andas à procura de galinhas?
- Não - disse o principezinho. - Ando à procura de amigos. O que é que “estar preso” quer dizer?
- É uma coisa que toda a gente se esqueceu - disse a raposa. - Quer dizer que se está ligado a alguém, que se criaram laços com alguém.
- Laços?
- Sim, laços - disse a raposa. - Ora vê: por enquanto, para mim, tu não és senão um rapazinho perfeitamente igual a outros cem mil outros rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu também não precisas de mim. Por enquanto, para ti, eu não sou senão uma raposa igual a outras cem mil raposas. Mas, se tu me prenderes a ti, passamos a precisar um do outro. Passas a ser único no mundo para mim. E, para ti, eu também passo a ser única no mundo…
- Parece que começo a perceber - disse o principezinho - Sabes, há uma certa flor… tenho a impressão que estou preso a ela…
(…)

Mas a raposa voltou a insistir na sua ideia:
- Tenho uma vida terrivelmente monótona. Eu, caço galinhas e os homens, caçam-me a mim. As galinhas são todas iguais umas às outras e os homens são todos iguais uns aos outros. Por isso, às vezes, aborreço-me um bocado. Mas, se tu me prenderes a ti, a minha vida fica cheia de Sol. Fico a conhecer uns passos diferentes de todos os outros passos. Os outros passos fazem-me fugir para debaixo da terra. Os teus hão-de chamar-me para fora da toca, como uma música. E depois, olha! Estar a ver, ali adiante, aqueles campos de trigo? Eu não como pão e, por isso, o trigo não me serve para nada. Os campos de trigo não me fazem lembrar nada. E é uma triste coisa! Mas os teus cabelos são da cor do ouro. Então, quando eu estiver presa a ti vai ser maravilhoso! Como o trigo é dourado, há-de fazer-me lembrar de ti. E hei-de gostar do barulho do vento a bater no trigo…
A raposa calou-se e ficou a olhar durante muito tempo para o principezinho.
- Por favor... Prende-me a ti! – acabou finalmente por dizer.
(…)

- E o que é que é preciso fazer? - perguntou o principezinho.
- É preciso ter muita paciência. Primeiro, sentas-te um bocadinho afastado de mim, assim, em cima da relva. Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não dizes nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas todos os dias te podes sentar um bocadinho mais perto…
O principezinho voltou no dia seguinte.
- Era melhor teres vindo à mesma hora – disse a raposa. Se vieres, por exemplo, às quatro, às três, já eu começo a ser feliz. E quanto mais perto for da hora, mas feliz me sentirei. Às quatro em ponto já hei-de estar toda agitada e inquieta: é o preço da felicidade! Mas se chegares a uma hora qualquer, eu nunca saberei a que horas é que hei-de começar a arranjar o meu coração, a vesti-lo, a pô-lo bonito… São precisos rituais.
- O que e um ritual? - perguntou o principezinho.
- Também é uma coisa de que toda a gente se esqueceu – respondeu a raposa. – É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias, diferente das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, têm um ritual, À quinta-feira, vão ao baile com as raparigas da aldeia. Assim, a quinta-feira é um dia maravilhoso. Eu posso ir passear para as vinhas. Se os caçadores fossem ao baile num dia qualquer, os dias eram todos iguais uns aos outros e eu nunca tinha férias.
Foi assim que o principezinho prendeu a si a raposa. E quando chegou a hora da despedida:
(…)

- Adeus…
- Adeus - disse a raposa. - Vou-te contar o tal segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos…
- O essencial é invisível para os olhos - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
- Foi o tempo que tu perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa… - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
- Os homens já se esqueceram desta verdade - disse a raposa. - Mas tu não te deves esquecer dela. Ficas responsável para todo o sempre por aquilo que está preso a ti. Tu és responsável pela tua rosa…

Antoine de Saint-Exupéry In O Principezinho

domingo, março 04, 2007

O segundo entre vida e morte...

PUM... PUM...
O meu coração bate baixinho. Aos meus ouvidos só um silêncio ruidoso se faz ouvir. Um clarão trespassa-me a visão para uma eternidade de cegueira. Caio desamparado sobre a calçada molhada, bato com a cabeça no chão e perco os sentidos. Sinto o meu corpo fugir à medida que fechava os olhos devagarinho. O meu coração mal bate, já não sinto, já não sinto...
Um frio curto toca-me quando fecho os olhos, acompanha-me nos segundos rápidos do meu sono. Contudo, algo se agita dentro de mim e provoca-me um tremor. Não dou conta, seguia com olhos fixos uma intensa luz branca ao fundo da escuridão. Queria alcança-la para lhe tocar mas os pés fugiam-me, não estava preparado.
Encantado pela luz via a vida fugir. Em volta de mim, para lá do meu sono, da vida que me era real, as pessoas se aglomeravam e davam as vidas para me acordar, mas ainda não era tempo, ainda via a luz ao fundo, começava a sentir o seu calor.
No frio, que me gelava de dentro para fora, sentia agora um formigueiro do adormecer do corpo. Senti um enorme desconforto ao ver-me impotente para controlar tal situação, senti medo pela primeira vez…
Voltavam os tremores, agora mais fortes que nunca. Passaram a convoluções rítmicas mas espaçadas. Entre os tremores o meu corpo morria para logo de seguida voltar. Morria e nascia repetidamente. A luz se fechava e se abria aos meus olhos até que se fez sentir uma enorme pressão sobre mim. A luz apagou-se e só restava agora a escuridão. O meu corpo parecia rebentar mas não sentia dor. Contudo, estava só no limite, os meus ouvidos começaram a zumbir tão alto, comecei a sentir uma dor no peito, parecia que estava próximo de rebentar. A dor aumentava cada vez mais, já não aguentava, queria apagar-me de vez. Parecia que estava a ser pisado por um elefante do tamanho de uma casa.
PUM… PUM.
Senti de novo o meu coração bater baixinho. A dor apaziguou-se dentro de mim, os ouvidos ainda zumbiam mas já me acostumava à sua presença. Senti novamente a força nas pálpebras dos olhos e esforcei-me para os abrir. Ainda não conseguia.
A luz branca que se tinha apagado, voltava calmamente enquanto respirava baixinho. Via-a como um anjo a aproximar-se, aumentava gradualmente até chegar tão perto de mim que podia tocar-lhe. Não quis tocar, só fiquei a observa-lo. Esta luz em forma de anjo já não era tão intensa como antes, sentia até uma sombra em seu redor. Rodava ou rodopiava em volta da luz que se voltava a apagar. Já não havia luz nem anjo, só o negro da sombra que deambulava nos meus olhos, livre e intensa. Os ouvidos continuavam a zumbir, o peito continuava a doer-me e respirar não era fácil. A sombra não me saía dos olhos, começava a assustar, começava a ganhar forma. Envolto de si mesmo a sombra criava a ilusão do terror e do medo, fiz-me forte, mas a sombra já não era sombra mas sim a carnificação do demónio que se alastrava pela minha alma, que se agarrava a mim com unhas de gato e me puxava para si. Num ápice de segundo cegou-me e sufocou-me enquanto me engolia nele mesmo. Ainda lutei, ainda tentei abrir os olhos mas ele era mais forte que eu e não me deixava fugir porque me prendia a correntes invisíveis. Eu sei que não havia nada, não existia nada, era só imaginação da minha mente, provocada pelo meu estado febril talvez, queria acreditar em tal pois o que via era demasiado horrível e assustador para ser real. Sentia as pálpebras dos meus olhos tremerem à medida que tentava abrir os olhos, quase conseguia, quase, falta pouco. Só um último esforço e serei novamente livre. Queria respirar, não conseguia, estava aflito, em pânico. Parecia que tinha a garganta tapada, sentia-me delirar dentro do demónio, queria gritar e libertar-me e voltar a respirar, queria gritar, queria…
Fugi, acordei, levanto-me do chão ainda sufocado, tento gritar e finalmente o grito sai-me livre e alto. Continuei a gritar durante alguns segundos para logo depois cair num choro de aflição. Parecia que não chorava desde pequenino. As pessoas olhavam-me com o olhar assustado. Não conseguia parar, era mais forte que tudo, queria sentir-me vivo e senti-me vivo. Senti o pânico e o medo de morrer, queria respirar e tocar em alguém, beijar alguém, sentir o amor e purificar-me de todo o mal.
Senti o aperto de alguém, não consegui ver a sua face mas fez-me sentir bem. Pouca força tinha para fazer mais do que simplesmente aceitar o seu aperto em mim. Pousei a minha cabeça em seu ombro, senti-me bem, deixei-me ficar…

Por vezes é preciso morrer para saber viver. Foi quando pousei a cabeça no seu ombro que senti que vivia e podia viver. Não sei se o que vivi foi real ou só pura imaginação da minha alma nas últimas gotas de oxigénio.
Na hora da nossa morte existe uns instante de tempo que nos parece eterno mas que na realidade não passa de uns milésimos de segundo da dimensão que vivemos. Nesse instante de segundo criamos um sonho, um sonho à nossa imagem. O que eu vi foi Deus e o Demónio porque era o que eu acreditava, foram os filmes que vi enquanto vivia que me deram as imagens que precisava, só tive que sonhar. Se tivesse sonhado só com Deus provavelmente não iria querer voltar a viver por isso o Demónio fez-me lutar para viver. Deu-me a força que precisava. Isto é o mais próximo que alguém conseguiu descobrir da morte. É o segundo em que o nosso coração pára e o nosso cérebro ainda trabalha. Para lá deste segundo ninguém voltou porque por lá ficaram.

terça-feira, setembro 12, 2006

Carta para a Morte

Solta-me destas correntes, velhas e enferrujadas, presas aos meus membros esgotados de força. Solta-me desta cela, húmida e vazia, que me tira o calor da luz púra do sol. Quero fugir desta tremenda solidão que me devasta dia após dia sem nunca cessar, sem nunca abrandar. Destrói-me, mata-me, isola-me. Levanta-me deste chão duro e gélido ao qual o meu corpo já se acostumou. Segura minha mão que ergo aos céus na desesperada busca da salvação, podias ser tu a minha salvação, podias ser tu que davas de novo a dádiva da vida, do amor. Tira-me daqui, deste pernicioso local, deste horrível terror que me violenta os olhos uma vez mais. Uma vez mais…
As sombras, negras e pesadas, são a minha terna companhia, mas não falam nem me tocam. Deixem-me aqui, neste canto, só. Deixem-me aqui de joelhos dobrados e cabeça baixa ouvindo somente o barulho do vento lá fora, esvoaçando e abanando, sem nunca parar, sem nunca desistir, como tu fizeste.
Perdi a força nas pernas, tremem assim que me ergo e luto, sim luto para continuar em pé, mas a força que a terra exerce sobre mim é mais forte que a vontade, que o desejo, que o amor, que a vida. Tantas vezes caí neste chão que o meu corpo já se habituou à dor da queda, do embate, do choque.
Eleva-me para os céus, pois a terra já é demasiado horrível para mim, já esgotei a vontade de ama-la, de venerá-la. Só os céus me podem salvar. Sem salvação, então enterra-me, mistura-me com o negro pesado da terra preta orgânica mas fecha-me os olhos para eu não conseguir ver a minha morte, tapa-me a boca para eu não conseguir gritar da dor, do sofrimento, rompe os meus tímpanos para eu não conseguir ouvir o barulho da terra cair sobre mim. Mata-me de vez, mata-me ou salva-me, pois eu já não aguento mais este tormento de ver esgotar os segundos do tempo eterno.