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terça-feira, abril 20, 2010

As Horas

Vivemos as nossas vidas, fazemos seja o que for que fazemos e depois dormimos: é tão simples e tão normal como isso. Alguns atiram-se de janelas, ou afogam-se, ou tomam comprimidos; um número maior morre por acidente, e a maioria, a imensa maioria é lentamente devorada por alguma doença ou, com muita sorte, pelo próprio tempo. Há apenas uma consolação: uma hora aqui ou ali em que as nossas vidas parecem, contra todas as probabilidades e expectativas, abrir-se de repente e dar-nos tudo quanto jamais imaginámos, embora todos, excepto as crianças (e talvez até elas), saibamos que a estas horas se seguirão inevitavelmente outras, muito mais negras e mais difíceis. Mesmo assim, adoramos a cidade, a manhã, mesmo assim desejamos, acima de tudo, mais.

Michael Cunningham, em "As Horas"

quinta-feira, abril 01, 2010

Lisboa

Numa altura em que as viagens Low-Cost fazem furor porque permitem que qualquer pessoa possa viajar pelo mundo fora a preços reduzidos, decidimos aproveitar esta filosofia de turismo para assim conhecer melhor Lisboa. Sim Lisboa... Porque depois de Madrid e Milão chegou a hora de conhecer melhor o nosso Portugal e assim já pensamos num fim-de-semana de custo reduzido e máxima diversão em Lisboa.

Meu Portugal querido, minha terra
De risos e quimeras e canções
Tens dentro em ti, esse teu peito encerra,
Tudo que faz bater os corações !

Tens o fado. A Canção triste e bendita
Que todos cantam pela vida fora;
O fado que dá vida e que palpita
Na calma da guitarra onde mora !

Tu tens também a embriaguês suave
Dos campos, da pisagem ao sol poente,
E esse sol é como um canto d’ave
Que expira à beira-mar, suavemente…

Tu tens, ó Pátria minha, as raparigas
Mais fescas, mais gentis do orbe imenso,
Tens os beijos, os risos, as cantigas
De seus lábios de sangue !… Às vezes, penso

Que tu és, Pátria minha, branca fada
Boa e linda que Deus sonhou um dia,
Para lançar no mundo, ó Pátria amada
A beleza eterna, a arte, a poesia !…

Florbela Espanca

terça-feira, março 02, 2010

Alice No País das Maravilhas



Alice era uma menina com muita imaginação.
Uma manhã em que estava a estudar no campo com a professora... adormeceu! Ela tinha o hábito de fechar os olhos... assim podia deixar vaguear a imaginação, liberta do controle dos mais velhos. E deixou-se levar...!
Acordou ao som de uma vozita! E viu um coelho muito estranho a correr.
- Espera-me, senhor Coelho! - gritou muito animada.
E levantou-se.
Perseguiu a personagem, mas este era muito rápido e meteu-se num buraco muito fundo, desaparecendo.
Alice seguiu-o e caiu num poço sem fundo, mas não se magoou... ! Até que chegou a um corredor mágico, onde viu entrar o coelho.
Para o seguir teve que beber uma poção e morder numa rolha...!
Diminuiu de tamanho, ficando pequenina!
Chegou então ao País das Maravilhas, onde dois irmãos se riram dela...!
Alice viu o coelho e entrou numa casa. Comeu um bombom que estava em cima da mesa ... e cresceu. Cresceu tanto que "transbordou" da casa!
Para mais o coelho, em vez de ajudá-la, preferiu sair dali a correr.
Então Alice mordeu uma noz... e ficou pequena de novo!
Saiu dali apressada.
Encontrou o Gato dos Desejos, o qual a levou à festa mais esquisita que jamais tinha visto.
Lá chegados uma lebre disse-lhe que estavam a celebrar uma festa de aniversário.
- Procuro um coelho branco! - declarou Alice.
Indicaram-lhe um cruzamento de caminhos.
Alice escolheu um ao acaso.
Depois de muito caminhar, encontrou finalmente o coelho.
- Alto, menina. A Rainha está a chegar. Vai-te embora!
Alice não percebeu nada.
Viu uns valetes com pernas a pintar as rosas de vermelho.
E de repente chegou a Rainha. Quis jogar criquet com Alice, e foi um sarilho.
O gato fez cair a Rainha...!
Porém, ao levantar-se... ela gritou que lhe faltavam os brincos reais!
- Eu não os tirei, senhora! disse Alice assustada.
- O meu carrasco vai-te cortar a cabeça -anunciou a Rainha.
- Levem-na para a cela! - gritou furibunda.
Nesse momento Alice voltou ao mundo real...!
Tinha tido um pesadelo?
Olhando em volta descobriu o coelho branco junto a uma árvore florida.
O coelho afinal existia mesmo!

"Alice No País das Maravilhas"



Perdurou no meu imaginário até aos dias de hoje. "Alice no País das Maravilhas" é de facto difícil de esquecer e agora acaba de se estrear nos cinemas pela mão de Tim Burton.
Como fã dos filmes de Tim Burton e porque "Alice no País das Maravilhas" é uma das recordações que trago desde os meus tempos de infância não perderei este filme nos cinemas.
Estou curioso e ansioso.

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Paulo Coelho

Uma filosofia de vida...

"O mundo está nas mãos
daqueles que têm a coragem de sonhar
e de correr o risco de viver seus sonhos."
Paulo Coelho

sexta-feira, janeiro 29, 2010

O essencial é invisivel aos olhos



XXI
E foi então que apareceu a raposa:
- Bom dia! -disse a raposa.
- Bom dia! - respondeu delicadamente o principezinho que se voltou mas não viu ninguém.
- Estou aqui - disse a voz -debaixo da macieira...
- Quem és tu? - perguntou o principezinho. - És bem bonita...
- Sou uma raposa - disse a raposa.
- Anda brincar comigo - pediu-lhe o principezinho - Estou tão triste...
- Não posso brincar contigo - disse a raposa. - Não estou presa…
- Ah! Então, desculpa! - disse o principezinho.
Mas pôs-se a pensar, a pensar, e acabou por perguntar:
- O que é que “estar preso” quer dizer?
- Vê-se logo que não és de cá - disse a raposa. - De que é que tu andas à procura?
- Ando à procura dos homens - disse o principezinho. - O que é que “estar preso” quer dizer?
- Os homens têm espingardas e passam o tempo a caçar - disse a raposa. - É uma grande maçada! E também fazem criação de galinhas! Aliás, na minha opinião, é a única coisa interessante que eles têm. Andas à procura de galinhas?
- Não - disse o principezinho. - Ando à procura de amigos. O que é que “estar preso” quer dizer?
- É uma coisa que toda a gente se esqueceu - disse a raposa. - Quer dizer que se está ligado a alguém, que se criaram laços com alguém.
- Laços?
- Sim, laços - disse a raposa. - Ora vê: por enquanto, para mim, tu não és senão um rapazinho perfeitamente igual a outros cem mil outros rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu também não precisas de mim. Por enquanto, para ti, eu não sou senão uma raposa igual a outras cem mil raposas. Mas, se tu me prenderes a ti, passamos a precisar um do outro. Passas a ser único no mundo para mim. E, para ti, eu também passo a ser única no mundo…
- Parece que começo a perceber - disse o principezinho - Sabes, há uma certa flor… tenho a impressão que estou preso a ela…
(…)

Mas a raposa voltou a insistir na sua ideia:
- Tenho uma vida terrivelmente monótona. Eu, caço galinhas e os homens, caçam-me a mim. As galinhas são todas iguais umas às outras e os homens são todos iguais uns aos outros. Por isso, às vezes, aborreço-me um bocado. Mas, se tu me prenderes a ti, a minha vida fica cheia de Sol. Fico a conhecer uns passos diferentes de todos os outros passos. Os outros passos fazem-me fugir para debaixo da terra. Os teus hão-de chamar-me para fora da toca, como uma música. E depois, olha! Estar a ver, ali adiante, aqueles campos de trigo? Eu não como pão e, por isso, o trigo não me serve para nada. Os campos de trigo não me fazem lembrar nada. E é uma triste coisa! Mas os teus cabelos são da cor do ouro. Então, quando eu estiver presa a ti vai ser maravilhoso! Como o trigo é dourado, há-de fazer-me lembrar de ti. E hei-de gostar do barulho do vento a bater no trigo…
A raposa calou-se e ficou a olhar durante muito tempo para o principezinho.
- Por favor... Prende-me a ti! – acabou finalmente por dizer.
(…)

- E o que é que é preciso fazer? - perguntou o principezinho.
- É preciso ter muita paciência. Primeiro, sentas-te um bocadinho afastado de mim, assim, em cima da relva. Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não dizes nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas todos os dias te podes sentar um bocadinho mais perto…
O principezinho voltou no dia seguinte.
- Era melhor teres vindo à mesma hora – disse a raposa. Se vieres, por exemplo, às quatro, às três, já eu começo a ser feliz. E quanto mais perto for da hora, mas feliz me sentirei. Às quatro em ponto já hei-de estar toda agitada e inquieta: é o preço da felicidade! Mas se chegares a uma hora qualquer, eu nunca saberei a que horas é que hei-de começar a arranjar o meu coração, a vesti-lo, a pô-lo bonito… São precisos rituais.
- O que e um ritual? - perguntou o principezinho.
- Também é uma coisa de que toda a gente se esqueceu – respondeu a raposa. – É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias, diferente das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, têm um ritual, À quinta-feira, vão ao baile com as raparigas da aldeia. Assim, a quinta-feira é um dia maravilhoso. Eu posso ir passear para as vinhas. Se os caçadores fossem ao baile num dia qualquer, os dias eram todos iguais uns aos outros e eu nunca tinha férias.
Foi assim que o principezinho prendeu a si a raposa. E quando chegou a hora da despedida:
(…)

- Adeus…
- Adeus - disse a raposa. - Vou-te contar o tal segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos…
- O essencial é invisível para os olhos - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
- Foi o tempo que tu perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa… - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
- Os homens já se esqueceram desta verdade - disse a raposa. - Mas tu não te deves esquecer dela. Ficas responsável para todo o sempre por aquilo que está preso a ti. Tu és responsável pela tua rosa…

Antoine de Saint-Exupéry In O Principezinho

segunda-feira, janeiro 04, 2010

Poema de William Shakespeare


De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça: amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera,
Ou se vacila ao mínimo temor.
Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
É astro que norteia a vela errante,
Cujo valor se ignora, lá na altura.
Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfange não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,
Antes se afirma para a eternidade.
Se isso é falso, e que é falso alguém provou,
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou.


"William Shakespeare"

quinta-feira, março 19, 2009

O Alquimista - Paulo Coelho

Hoje decidi fazer referência ao livro que está no nº 1 das minhas preferências desde que o li pela primeira vez. Falo do "O Alquimista" de Paulo Coelho.
Decidi fazer referência a este livro porque hoje talvez mais que outros dias senti a absoluta necessidade de ir atrás dos sonhos por mais difíceis que me parecessem.
Na verdade parte do meu futuro surge-me aos olhos de modo incerto. No baloiçar da corda bamba para que lado irei cair?
Gosto de pensar que caírei para o lado certo, seja ele qual for.
É aqui, no limiar da instabilidade, que entram os sonhos, para viciarem a minha forma de pensar e assim arranjar forças para lutar.
Hoje questiono a minha existência, hoje descubro os meus sonhos...


Sinopse do livro "O Alquimista" de Paulo Coelho:

"Conta a história de Santiago, um pastor andaluz que abandona a sua terra natal e viaja pelo Norte de África em busca de uma quimera - um tesouro enterrado sob as pirâmides. Nesta viagem, conhece uma jovem cigana, um homem que diz ser rei e um alquimista, que o vão ajudar na sua busca. Ninguém sabe exactamente o que é um tesouro nem se Santiago conseguirá ultrapassar todos os obstáculos da sua travessia do deserto. Mas aquilo que começa por ser uma aventura por locais exóticos para procurar a riqueza material, acaba por se transformar numa viagem de descoberta de si mesmo e da riqueza da alma humana. O Alquimista recria um símbolo intemporal que nos recorda a importância de seguir os nossos sonhos e ouvir a voz do coração."



sábado, julho 12, 2008

Aparição

Sento-me aqui nesta sala vazia e relembro. Uma lua quente de Verão entra pela varanda, ilumina uma jarra de flores sobre a mesa. Olho essa jarra, essas flores, e escuto o indício de um rumor de vida, o sinal obscuro de uma memória de origens. No chão da velha casa a água da lua fascina-me. Tento, há quantos anos, vencer a dureza dos dias, das ideias solidificadas, a espessura dos hábitos, que me constrange e tranquiliza. Tento descobrir a face última das coisas e ler aí a minha verdade perfeita. Mas tudo esquece tão cedo, tudo é tão cedo inacessível. Nesta casa enorme e deserta, nesta noite ofegante, neste silêncio de estalactites, a lua sabe a minha voz primordial. Venho à varanda e debruço-me para a noite. Uma aragem quente banha-me a face, os cães ladram ao longe desde o escuro das quintas, fremem no ar os insectos nocturnos. Ah, o sol ilude e reconforta. Esta cadeira em que me sento, a mesa, o cinzeiro de vidro, eram objectos inertes, dominados, todos revelados às minhas mãos. Eis que os trespassa agora este fluido inicial e uma presença estremece na sua face de espectros... Mas dizer isto é tão absurdo! Sinto, sinto nas vísceras a aparição fantástica das coisas, das ideias, de mim, e uma palavra que o diga coalha-me logo em pedra. Nada mais há na vida do que o sentir original, aí onde mal se instalam as palavras, como cinturões de ferro, aonde não chega o comércio das ideias cunhadas que circulam, se guardam nas algibeiras. Eu te odeio, meu irmão das palavras que já sabes um vocábulo para este alarme de vísceras e dormes depois tranquilo e me apontas a cartilha onde tudo já tinha escrito... E eu te digo que nada estava ainda escrito, porque é novo e fugaz e invenção de cada hora o que nos vibra nos ossos e nos escorre de suor quando se ergue à nossa face.

Aparição, Vergílio Ferreira